Apontamentos sobre política, economia, educação, sociedade e outros, com afirmações contraditórias, ou não, a que a razão chega quando se pretende determinar a natureza da sociedade que temos e onde vivemos.
publicado por M. Rodrigues | Segunda-feira, 04 Julho , 2011, 22:57

Ao observar a nova configuração da Assembleia da República após as eleições de 5 de junho verifiquei que em todos os partidos aparecem muitos elementos que já constavam em anteriores legislaturas. Sobre isto nada haveria a dizer pois é da competência dos partidos propor os deputados que se devem sentar nas respetivas bancadas. Todavia centrei a minha atenção na bancada do partido socialista e verifiquei  grande número de elementos que tinham pertencido ao anterior governo como ministros.   Nesse momento tive um "flashback". Retrocedi no tempo e vi-me no ano de 1969 a comprar um pequeno opúsculo, escrito por Raul Rego, denominado "Os políticos e o Poder Económico".  Estava então no poder  Marcelo Caetano que tinha permitido à oposição concorrer às eleições legislativas de 1969  (diga-se eleições fantoches, pois já se sabia quem iria ganhar). Raul Rego fazia, nessa altura, parte da lista de candidatura a deputados pelo círculo de Lisboa da Unidade Democrática. Após o 25 de abril de 1974  passou a ser militante do partido socialista  pelo qual foi deputado  na Assembleia da República de1975 a 1999.

Escreveu então Raul Rego que no século XIX e nas primeiras quatro décadas do século XX  homens nascidos ricos ou que enriqueceram pela sua profissão, ao entregarem-se à política para prestarem um serviço público ficaram mais pobres do que quando entraram "morrendo de mãos limpas" como ele disse. Era norma que, após terminar um serviço prestado ao estado, voltassem para as suas profissões anteriores. "A interpenetração económica e política não era a regra.".

Mais adiante, afirmava aquele socialista, que "em nossos dias, encontramos antigos governantes em numerosas empresas, das mais poderosas e rendosas…" (p. 22). E, mais adiante,"… e assistimos às nomeações ou eleições para as companhias. Para estas passou como que a ser ponto de honra o ter um antigo governante nos seus corpos gerentes.". Referindo-se à competência técnica afirmava ainda que "… na maior parte das vezes, esses homens não entram em conselhos de administração pela sua competência técnica. E basta ver-se como passam de uma companhia para outras, de actividades completamente diferentes, para se saber que a capacidade que os move é sempre a mesma…" (p. 22).   Poderíamos continuar a citar Raul Rego pois teríamos muito por onde escolher. Ao longo do texto menciona um rol de nomes de governantes da época que se encontravam nestas circunstâncias. 

Verificamos que nas últimas décadas pós 25 de abril a referida situação piorou. Proliferam senhores, alguns sem profissão, que se introduziram na política para benefício próprio ou que se tornaram clientes de partidos apenas com objetivos pessoais. Outros que tendo uma profissão a ela já não regressaram   após o cumprimento de mandatos. Há ainda os que são colocados em empresas, ou que, apesar de comprovada incompetência, vão ocupar cargos  de maior responsabilidade no aparelho do estado ou em empresas privadas que irão ficar em situação privilegiadas face ao estado.

Veja-se o caso dos últimos oito anos de governação socialista (normalmente  outros partidos que alternam no poder também o fazem), durante o qual a distribuição de cargos se tornou escandalosa.

É evidente a atualidade do texto de Raul Rego. Afinal, tudo o que ele denunciava  tem vindo a ser sistematicamente desvirtuado pelos que, em 1973  deram corpo ao partido socialista que na altura  apregoavam os princípios imorais da distribuição de cargos públicos e privados a antigos governantes pelo regime fascista. São os mesmos que, agora, fechando tacitamente os olhos, aprovam e sustentam a  mesma tese  que combatiam que se tem vindo a reproduzir através das novas gerações  de militantes do partido.


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